Casa Vogue discute o papel das mulheres na construção da sociedade
- quarta-feira, setembro 22, 2021
- By Carla Sabrina
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A edição de Casa Vogue de setembro traz como tema central a presença de personagens femininas na construção das cidades. A reportagem ‘Cidades das Mulheres’ revela de que maneira as sociedades comandadas por homens falharam ao não dar o devido valor a este papel exercido pelas mulheres - e, no caminho, tornaram o desenho de cidades, prédios e mobiliário mais hostil, desigual e injusto.
"Nossas cidades são patriarcados escritos na pedra, no tijolo, no vidro e no concreto." A frase da geógrafa feminista britânica Jane Darke escancara um fato incontestável: o desenvolvimento urbano em todo o globo sempre foi obra de homens. Nos postos executivos, "a maioria faz escolhas de política econômica ao planejamento de moradias, de localização das escolas aos assentos de ônibus, sem tomar conhecimento de como essas decisões afetam as mulheres, muito menos se preocupar com isso", afirma a canadense Leslie Kern, geógrafa e doutora em estudos femininos pela Universidade de York.
Evitar certos locais, horários, saídas solitárias e até alguns tipos de roupa integra o que Leslie chama de vigilância constante, que ocupa a mente feminina e restringe seu mapa. Não por acaso, a aclamada ativista social Jane Jacobs acreditava que a capacidade de se sentir segura sozinha entre milhões de estranhos consiste no marcador final da habitabilidade de um lugar.
"O ambiente urbano impõe certos comportamentos às mulheres, principalmente em função do assédio. A novidade é que elas não aceitam mais isso, querem participar das decisões e isso é muito transformador", avalia Paula Freire Santoro, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), onde coordena o Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (LabCidade).
No entanto, a orientação das cidades foca no homem que sai de manhã para trabalhar e volta à noite. "Como essa economia do cuidado se traduz, ou não, no urbanismo? As boas creches e escolas, os parques, as praças e outros espaços de suporte às mulheres deveriam estar descentralizados e acessíveis", defende Elisa Monçores, doutora em economia, pesquisadora de gênero e trabalho e professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Na prática, os desafios cotidianos aguçam a percepção das habitantes da urbe sobre locais que carecem de melhorias. "A gente sabe onde estão os buracos perigosos para as crianças de bicicleta, qual rua alaga ou sofre com esgoto, que lugar não tem luz à noite nem calçada para cadeirante ou faixa de pedestre para idoso", fala Vilma Martins, líder comunitária na União de Vila Nova, extremo leste de São Paulo. "Se nos ouvirem, melhoraremos não só a nossa a vida, mas a de todo mundo", defende ela, que integra o Coletivo Mulheres do GAU (Grupo de Agricultura Urbana), responsável por transformar um terreno que acumulava entulho em um viveiro-escola, referência no bairro.
Para a arquiteta Patricia Anastassiadis, a diversidade de pontos de vista também aprimora o mercado imobiliário. "Um olhar feminino, mais amoroso, faz diferença, confere mais suavidade e soluções práticas efetivas. Já recebi muito projeto de arquitetura que só pensava na casca, não contemplava nada do morar, do conforto, de uma escala mais humana", relata, reforçando que não se trata de ter ranço dos homens, mas de atuar junto com eles, de igual para igual.
A jornada múltipla explica por que as mulheres se movem de maneira diferente na malha urbana. "Elas realizam deslocamentos poligonais, mais densos e complexos. Deixam um filho na creche, o mais velho na escola, passam na farmácia e vão trabalhar. Na volta, param no mercado, pegam os filhos e caminham para casa", exemplifica a urbanista Leticia Sabino, fundadora e diretora da ONG Sampa Pé. Viena observa isso há décadas. Em 1999, consultou as cidadãs sobre seus trajetos e buscou remodelar áreas para facilitar a mobilidade, melhorar a acessibilidade de pedestres e criar conjuntos habitacionais dotados de creches, serviços de saúde e atendidos por transporte público.
Nos ônibus, diversos municípios brasileiros (entre eles, Fortaleza, Curitiba, Porto Alegre e vários no estado de São Paulo) implementaram a Parada Segura, iniciativa que garante às passageiras o direito de desembarcar fora dos pontos pré-fixados, especialmente à noite, para encurtar caminhadas por trechos que consideram perigosos. Alguns definiram vagões "cor-de-rosa" exclusivos no metrô, a fim de coibir abusos durante as viagens. "É uma ação pontual, em geral bem aceita, mas que apenas segrega, não muda o comportamento dos homens", pondera Paula Manoela, doWRI Brasil.
Em Fortaleza, desde 2019 o aplicativo Nina recebe denúncias de assédio nos coletivos. Entre março e setembro de 2020 computou 2.300 relatos, encaminhados à Casa da Mulher Brasileira, que reúne órgãos da polícia, Ministério Público, assistência psicológica e secretarias municipais. "A ideia é reduzir a impunidade e montar uma plataforma de dados que aprimore o planejamento urbano", afirma Simony César, fundadora e CEO da startup. "Saber os horários e locais desses crimes embasa a intervenção. Se ocorrem em veículos e terminais superlotados, este é o aspecto a atacar", completa.
Por fim, aumentar a participação feminina nos movimentos sociais e na política é fundamental. "O fato de as mulheres líderes de governos terem tido mais sucesso na gestão da pandemia diz muito", afirma Cristina Albuquerque, do WRI. "Precisamos de mais prefeitas, vereadoras, urbanistas. Corri 18 estados do país e só encontrei uma secretária de transportes. É mais difícil inserir pautas feministas onde só existem homens tomando decisões", lamenta Simony, do app Nina. A líder comunitária Vilma é otimista: "Já obtivemos conquistas unindo forças com outras lutas sociais, de negros, LGBTQIA+, indígenas. Esse mundo que nos poda ainda vai entender que só queremos fazer todos florescerem."
"Estamos num momento histórico crucial, em que se jogou luz sobre esses assuntos. As mulheres sempre reivindicaram a valorização profissional, ou, no mínimo, a não invisibilidade, e atualmente isso conta com aderência. Elas não esperam mais que se abram as portas, entram sem pedir licença. Na arquitetura e no urbanismo, apesar de o contingente feminino superar o masculino [60%, segundo pesquisa de 2019 do Conselho de Arquitetura e Urbanismo], elas ainda não desfrutam do mesmo destaque. Há mulheres talentosas participando ativamente de grandes projetos, mas os homens tomam a frente, como se elas fossem coadjuvantes, quando muitas vezes o olhar delas é essencial. Acompanho vários coletivos organizados nas faculdades de arquitetura. As meninas já saem da graduação com essa visão, e arquitetas mais experientes, que antes não contavam com apoio para se posicionarem, hoje se colocam mais, sem medo de repressão. O machismo, um dos pilares das opressões que construíram nosso corpo social, é um problema estrutural. Não basta os homens se mobilizarem, não basta a sociedade se conscientizar. Sem a esfera institucional, nada se concretiza. Ela garante respaldo para que se avance na prática, não só no discurso".
Atenta às mais diversas correntes de pensamento, a arquiteta parece saber, mais do que o poder de uma fala eloquente, o valor de uma boa escuta. Nunca esquece suas origens e tem ocupado espaços com propriedade. Em entrevista à Casa Vogue, Joice fala sobre representatividade, educação para a cidadania e decolonialismo e avalia a importância da representatividade feminina - entre tantas representatividades necessárias - no planejamento urbano e em outras esferas de tomada de decisão.
Esses e outros conteúdos podem ser conferidos na íntegra na revista Casa Vogue de setembro.
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